Intervenção: a sorte está lançada!

Sérgio Botêlho Não há nada mais importante no noticiário deste sábado, 17, do que a intervenção militar decretada pelo governo Temer na Segurança Pública do Rio de Janeiro, com

Sérgio Botêlho
Não há nada mais importante no noticiário deste sábado, 17, do que a intervenção militar decretada pelo governo Temer na Segurança Pública do Rio de Janeiro, com as opiniões de especialistas, do povo e da própria mídia bastante divididas.
A decisão se sucede a um Carnaval de forte prejuízo para a imagem do governo, expressada pelas críticas monumentais veiculadas em blocos, pelo Brasil afora, e, principalmente, pelas duas escolas campeã e vice da folia carioca: a Beija Flor e a Paraíso do Tuiuti.
No binóculo do Planalto, pesaram, ainda, as eleições de 2018, onde, pela ordem, a esquerda e a extrema-direita estão na dianteira das intenções de votos, sem que um candidato ao gosto do Planalto (de preferência, o próprio presidente) haja decolado.
Enfim, nas avaliações mais frias do governo, a proximidade de uma derrota da reforma previdenciária, na Câmara dos Deputados, semana que entra, jogou pesado na busca de uma saída a evitar o aprofundamento do desgaste dos governistas.
A melhor sugestão não poderia recair sobre outra área que não a da Segurança Pública, um dos principais motivos de insatisfação popular, no Brasil, e alvo das mais espetaculares reportagens da mídia televisiva, nos últimos dias.
Ao decidir pela intervenção, o governo acaba agindo sobre uma área efetivamente problemática, que é a da Segurança Pública, atacando a violência, buscando aumentar a popularidade de Temer, e minimizando os efeitos da não votação da reforma da Previdência.
Na tentativa de encontrar o caminho da popularidade, Temer quer se viabilizar como candidato à Presidência (e, pode, no que pesem as enormes dificuldades da empreitada), buscando enfrentar as esquerdas no pleito de outubro próximo, com ou sem Lula.
Na outra ponta, ao lançar mão de um instrumento que é uma das principais bandeiras da extrema-direita, até agora, o uso da força militar, Temer toma para si o discurso único do candidato Bolsonaro, bem aceito em determinado nicho radicalizado da população.
Certamente, que o governo corre riscos, e eles não são desprezíveis. Não é papel do Exército agir especificamente na segurança pública, e, sim, em guerras, onde a prioridade é a de exterminar o inimigo.
Junto com a morte do inimigo do crime, nas cidades, costumam aparecer vítimas inocentes, e qualquer tragédia maior, nesse particular, tem evidente repercussão negativa do ponto de vista popular, podendo enterrar o esforço
Além do mais, os bandidos podem encontrar o caminho da vingança, contra o esforço no Rio de Janeiro, espalhando ações pelo Brasil afora, o que não é difícil, tendo em vista o caráter nacional das facções criminosas, do Amapá ao Rio Grande do Sul.
No que diz respeito às eleições propriamente ditas, a decisão do governo causa bem mais estragos na candidatura de extrema-direita, uma vez que a tese praticamente única da campanha direitista, a da utilização das Forças Armadas, fora do seu mais específico e determinado entendimento constitucional, será testada, com antecedência, na prática.
Se der certo, os louros serão de Temer e do seu governo, beneficiando diretamente sua campanha como alternativa real nesse campo. Se der errado, esvaziará o discurso da extrema-direita, enquanto projeto de combate à violência.
Também, o projeto político-eleitoral das esquerdas estarão em xeque. Se a intervenção der certo, uma medida bastante criticada pelos ‘gauches’, diminuirão as chances eleitorais desse campo político no pleito majoritário de outubro próximo.
Contudo, se a intervenção resultar num erro, ressurgirão, com maior apelo, no campo do debate político, as teses de redistribuição de renda, de mais investimentos em educação e em saúde, de descriminalização das drogas, para enfrentar o tráfico, entre outras.
E, como se sabe, essas são teses bem mais presentes no discurso das esquerdas.
A sorte está lançada!

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