Marielle: Brasil chora por sua mais nova mártir

Sérgio Botêlho Há um mau cheiro no ar. E esse mau cheiro não vem do corpo inerte de Marielle. Esse mau cheiro vem dos seus assassinos. Esse mau cheiro

Sérgio Botêlho

Há um mau cheiro no ar. E esse mau cheiro não vem do corpo inerte de Marielle. Esse mau cheiro vem dos seus assassinos. Esse mau cheiro vem de uma sociedade historicamente baseada em podres poderes.

Negra, mulher, feminista, pobre e defensora dos direitos humanos, Marielle ousou demais. Ousou denunciar a carcomida e perversa organização social brasileira, a perseguição aos mais pobres, a opressão como forma suprema de exercício do poder, no país.

Mais ousada ainda, Marielle resolveu sonhar. Sonhar com um Brasil que respeite os direitos humanos, que se funde em novos princípios de distribuição da riqueza, que se convença da diversidade de nossas culturas e de nossas etnias.

Foi demais a ousadia de Marielle. Foi insuportável àqueles que desejam a manutenção dessa ordem social e econômica miserável, patrimonialista, elitista e que nos condena, em virtude de sua manutenção, à permanência eterna no caos do subdesenvolvimento.

O problema é que Marielle estava levando um pouco mais de confiança e de proteção a comunidades paupérrimas e desamparadas, do Rio de Janeiro, cidade que, apesar de tão bela e tão amada pelo país inteiro, espelha tragicamente toda a desgraça social e política do país.

De sua tribuna na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a mais nova mártir social brasileira, não dava trégua aos opressores e assassinos espalhados pelas ruas da capital fluminense a executar, principalmente, jovens negros e pobres.

A ousada Marielle, ocupando os microfones da Câmara, tinha a petulância de falar alto contra os assassinatos perpetrados por quem deveria, na verdade, proteger a sociedade, mas, que, a serviço do status quo criminoso e opressor, se ocupava em matar.

E foram esses que os que, segundo todos os indícios, assassinaram Marielle, deixando órfãos os pobres e miseráveis a quem a nossa heroína, da hora, defendia com tanto ardor e unhas e dentes, em sua ousada trajetória.

É lamentável que tenha de estar falando aqui de uma heroína morta, para desespero de seus protegidos, mas, sobretudo, de sua família e de seus amigos. Quisera, diferentemente disso, estar falando de uma heroína viva, alegre, destemida e ousada como sempre foi Marielle.

Estamos, por conta disso, profundamente chocados, principalmente por ter tomado conhecimento da existência da extraordinária Marielle no momento de sua morte, executada de forma a mais cruel possível.

Com certeza, outras Marielles insistem na extrema ousadia de denunciar opressões de todas as ordens que campeiam a sociedade brasileira. E, infelizmente, Marielle nem foi a primeira nem será a última a ter sua vida tão perversamente tirada.

É de se perguntar, agora, à maneira da mártir carioca: quantas Marielles terão de ser assassinadas para que o Brasil mude? Será possível que ainda tenhamos de assistir a outras mortes, assim, violentas para que o país avance no respeito aos pobres?

Esta quinta-feira, 15, é dia de chorar o desaparecimento de Marielle. Mesmo os que não conviveram com ela, durante sua vida, choram copiosamente a morte de que, agora, como se tratasse de uma velha e bondosa conhecida.

Como sempre, a esperança é de que a morte de Marielle represente, enfim, um ponto de inflexão real no sentido de uma mudança nas relações sociais e políticas, embora não haja, infelizmente, nenhum sinal nessa direção.

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